Retrato de Cilene Resende

escritora · poeta

há uma sedução nas coisas prestes a ruir

A consagração do silêncio, meu novo livro de poesia,
já está à venda.

Capa de A consagração do silêncio, de Cilene Resende

Nunca disse com a boca.
Mas você viu no jeito
que eu te olhava.

A consagração do silêncio · Poesia · Pepita, 2026 · 80 páginas

Cinco travessias: uma infância que conversava com o vento, um mar que leva tudo e devolve pouco, um desejo que não pede licença, um amor que nunca foi dito em voz alta, e o instante em que o amor enfim chega e o mundo volta a ter cheiro.

O livro

Consagrar o silêncio é reconhecer que houve ali algo inteiro que não precisou de voz para acontecer.

São 80 páginas sobre uma menina que conversava com os ventos, uma mulher que aprendeu a mergulhar para não gritar, e um amor que se disse inteiro sem abrir a boca.

Há abismos de silêncio em mim.
Clarice Lispector
Sem dúvida, nossa vingança será o amor: poder amar, apesar de tudo.
Cristina Peri Rossi

As duas epígrafes do livro.

Do livro

Consagrando o silêncio

nunca disse com a boca
mas você viu no jeito que eu te olhava
depois de fingir que nada demais tinha acontecido,
só para ainda passar o resto do meu dia ao seu lado

ficamos bons em calar, não foi?
penduro a tua falta com cuidado no meu cabide
e seus olhos me dizem: eu também.

sim, eu sabia desde o começo
não cabíamos
nem um no outro, nem no mundo

continuaremos nos encontrando nos espaços em branco,
nos mesmos livros,
nas mesmas músicas,
no mesmo banco onde a cidade parece ter milhares de anos
e onde tudo que somos insiste em existir

nossos olhares farão amor consagrando o silêncio

Cilene Resende, A consagração do silêncio

O que tem dentro

Cinco travessias.

  1. 01

    A menina que falava ventanias

    A infância, o quintal, a vizinha que fazia velas e podia ser fada. A descoberta de que cada palavra carrega um corpo.

    soprou pra dentro e dentro viu poesia

  2. 02

    Na cidade de Ondaluzia

    Uma casa sem tranca que dá para o mar. O mergulho, a tempestade, a mala antiga sem rodinhas. A parte da perda.

    o mar guarda / eu também

  3. 03

    Amar um leão

    O desejo; a fome, o fogo, a escolha…

    na selva da pele o desejo é uma fera sem jaula

  4. 04

    Consagrando o silêncio

    O amor que não foi dito. A despedida, o coração deixado no sofá, as perguntas que ninguém responde.

    quantos céus perdi por descuido mudo

  5. 05

    Agora que sinto amor

    A chegada. O corpo sem culpa e o mundo voltando a ter cheiro.

    agora que sinto amor / o mundo tem cheiro

Sublinhados

  • não se pode amar um leão sem ajoelhar-se diante da fome
  • escolher é um ato terminal, e a vida não admite apelação
  • há mundos inteiros onde ninguém nos quer de volta
  • te amei demais para te afogar
  • mato futuros com a frieza de quem ama
  • pessoas como você e eu ficam e assistem às estrelas irem embora
  • tudo foi quase e quase foi tudo
  • a paixão é um exílio de si

Aos que naufragaram.

A dedicatória do livro.

Este livro é para quem já amou sem poder dizer. Para quem guarda uma conversa que nunca aconteceu e ainda assim mudou tudo. Para quem tem uma cidade, uma casa ou uma pessoa no fundo do mar.

É para quem lê poesia, e também para quem acha que não lê, mas sublinha frase de música e guarda print de texto alheio.

Não é um livro de consolo. É um livro de companhia.

Cilene Resende sentada, retrato de estúdio

Quem escreveu

Comecei a escrever
para ter companhia.

Finalista do Prêmio Nacional Escritoras Brasileiras · Autora de O Mar É Uma Pista de Dança (Polifonia, 2025), lançado na FLIP

Fui uma criança que mudou muito de cidade. Cheguei em Maringá morando num prédio onde não havia outras crianças, e resolvi o problema do jeito mais lógico que encontrei: inventei os amigos. A escrita chegou antes como companhia. Só muito depois virou ofício.

Sou advogada, empresária e bailarina clássica. Trago para o texto o que a vida me deu de repertório: dança, música, aquarela, direito, o mar, as flores e o significado delas.

Escrevo sobre desejo, sobre corpo, sobre o feminino e sobre as coisas que não se resolvem. Acredito que literatura não precisa escolher entre profundidade e prazer, e que mulher pode escrever desejo sem ser diminuída por isso.

Cilene Resende

Publicado por

pepita

A pepita é um selo de poesia que nasce de um trabalho de garimpo literário: uma busca por poetas que produzem obra de valor e permanecem fora dos circuitos tradicionais de evidência. Idealizado e organizado por Matheus Peleteiro, se propõe como um catálogo vivo do que está sendo escrito hoje.

Ouro ainda por lapidar.