escritora · poeta
há uma sedução nas coisas prestes a ruir
A consagração do silêncio, meu novo livro de poesia,
já está à venda.
Nunca disse com a boca.
Mas você viu no jeito
que eu te olhava.
Cinco travessias: uma infância que conversava com o vento, um mar que leva tudo e devolve pouco, um desejo que não pede licença, um amor que nunca foi dito em voz alta, e o instante em que o amor enfim chega e o mundo volta a ter cheiro.
O livro
Consagrar o silêncio é reconhecer que houve ali algo inteiro que não precisou de voz para acontecer.
São 80 páginas sobre uma menina que conversava com os ventos, uma mulher que aprendeu a mergulhar para não gritar, e um amor que se disse inteiro sem abrir a boca.
Há abismos de silêncio em mim.
Sem dúvida, nossa vingança será o amor: poder amar, apesar de tudo.
As duas epígrafes do livro.
Do livro
Consagrando o silêncio
nunca disse com a boca
mas você viu no jeito que eu te olhava
depois de fingir que nada demais tinha acontecido,
só para ainda passar o resto do meu dia ao seu lado
ficamos bons em calar, não foi?
penduro a tua falta com cuidado no meu cabide
e seus olhos me dizem: eu também.
sim, eu sabia desde o começo
não cabíamos
nem um no outro, nem no mundo
continuaremos nos encontrando nos espaços em branco,
nos mesmos livros,
nas mesmas músicas,
no mesmo banco onde a cidade parece ter milhares de anos
e onde tudo que somos insiste em existir
nossos olhares farão amor consagrando o silêncio
Cilene Resende, A consagração do silêncio
O que tem dentro
Cinco travessias.
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01
A menina que falava ventanias
A infância, o quintal, a vizinha que fazia velas e podia ser fada. A descoberta de que cada palavra carrega um corpo.
soprou pra dentro e dentro viu poesia
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02
Na cidade de Ondaluzia
Uma casa sem tranca que dá para o mar. O mergulho, a tempestade, a mala antiga sem rodinhas. A parte da perda.
o mar guarda / eu também
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03
Amar um leão
O desejo; a fome, o fogo, a escolha…
na selva da pele o desejo é uma fera sem jaula
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04
Consagrando o silêncio
O amor que não foi dito. A despedida, o coração deixado no sofá, as perguntas que ninguém responde.
quantos céus perdi por descuido mudo
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05
Agora que sinto amor
A chegada. O corpo sem culpa e o mundo voltando a ter cheiro.
agora que sinto amor / o mundo tem cheiro
Sublinhados
- não se pode amar um leão sem ajoelhar-se diante da fome
- escolher é um ato terminal, e a vida não admite apelação
- há mundos inteiros onde ninguém nos quer de volta
- te amei demais para te afogar
- mato futuros com a frieza de quem ama
- pessoas como você e eu ficam e assistem às estrelas irem embora
- tudo foi quase e quase foi tudo
- a paixão é um exílio de si
Aos que naufragaram.
A dedicatória do livro.
Este livro é para quem já amou sem poder dizer. Para quem guarda uma conversa que nunca aconteceu e ainda assim mudou tudo. Para quem tem uma cidade, uma casa ou uma pessoa no fundo do mar.
É para quem lê poesia, e também para quem acha que não lê, mas sublinha frase de música e guarda print de texto alheio.
Não é um livro de consolo. É um livro de companhia.
Publicado por
pepita
A pepita é um selo de poesia que nasce de um trabalho de garimpo literário: uma busca por poetas que produzem obra de valor e permanecem fora dos circuitos tradicionais de evidência. Idealizado e organizado por Matheus Peleteiro, se propõe como um catálogo vivo do que está sendo escrito hoje.
Ouro ainda por lapidar.