o instante é um modo de ser tempo que é quase um ferimento
o céu das 17h45 é uma viga que cede em laranjas e lilases,
uma arquitetura de rosas desabando sobre o telhado
deve-se beber a luz com a rapidez do desamparo
no centro da sala, o infinito amor nos olhinhos que me procuram
enquanto o leite é o único fio que nos prende à terra,
é um átomo de deus vertendo do meu peito para a sua boca
num lugar jamais pisado, há um par de olhos curiosos e nem um pouco inocentes que busca o meu centro de gravidade e me atravessa as frestas da carne
é quando se percebe que o mar não cabe no olho,
que a água é vasta demais para um abraço,
que entendemos nossa própria brevidade:
o deslumbre é a primeira consciência da perda
como se apaga rapidamente o rastro de uma lágrima de adeus na tez dolorida
de um amor cujo sal fosse a única tinta capaz de guardar o que de tão fugidio já não é mais.
Feliz dia das Mães