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Liturgia do instante

Cilene Resende
Cilene Resende Escritora & Poeta
7 de maio, 2026
o instante é um modo de ser tempo que é quase um ferimento

o céu das 17h45 é uma viga que cede em laranjas e lilases,

uma arquitetura de rosas desabando sobre o telhado

deve-se beber a luz com a rapidez do desamparo

no centro da sala, o infinito amor nos olhinhos que me procuram

enquanto o leite é o único fio que nos prende à terra,

é um átomo de deus vertendo do meu peito para a sua boca

num lugar jamais pisado, há um par de olhos curiosos e nem um pouco inocentes que busca o meu centro de gravidade e me atravessa as frestas da carne

é quando se percebe que o mar não cabe no olho,

que a água é vasta demais para um abraço,

que entendemos nossa própria brevidade:

o deslumbre é a primeira consciência da perda

como se apaga rapidamente o rastro de uma lágrima de adeus na tez dolorida

de um amor cujo sal fosse a única tinta capaz de guardar o que de tão fugidio já não é mais.

Feliz dia das Mães